sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

terra - mangue - lavanda



arrendar
ou melhor, ocupar a terra,
a terra pertence à quem nela trabalha – uma vez discuti com meu pai,
ou mesmo ocupar o mangue, perfeita conjunção
entre Terra e Mar.

o sol aquece os guaiamuns.

num impulso
semear lavandas na terra e mesmo no barro,
lavandas tão lindas, a cor do céu no fim daquela tarde.

quando nasci, minha mãe tinha os tornozelos afundados no mangue. seu olho, como que sempre, mirava uma vasilha de barro. cortou meus cabelos, sangrou minha pele e encheu minhas mãos de sementes.

kosi ewe, kosi orisa

dias que busco semear pequenos cosmos azuis e roxos por onde passo. vibração que enfrenta a fome, a morte e o desamor. uma rama de alfazema amarrada repousa sobre mim, no vão, o abismo entre meus pés, meus braços, meus olhos e minha boca. dias atrás apontaram o dedo no meu peito e eu chorei tanto. ali, que cavalgo em liberdade e companhia, ainda há tanta lama.

domingo, 8 de outubro de 2017

imigração


tenho acordado muito cedo todos os dias, por conta do novo trabalho. para alguém como eu, cada despertar dentro de uma rotina e de um esquema determinado de tarefas é algo entre o Desespero e a Vitória. também tenho tido o privilégio de: beijar por três dias inteiros o homem por quem estou apaixonado, ouvir os pássaros e sentir nas pernas o profundo frio que até por estes lados tem tomado o meu corpo.

o sol é a estrela central do sistema solar. todos os outros corpos do sistema solar, como planetas, planetas anões, asteroides, cometas e poeira, bem como todos os satélites associados a estes corpos, giram ao seu redor. responsável por 99,86% da massa do sistema solar, o sol possui uma massa trezentos mil vezes maior que a da terra, e um volume um milhão e trezentas mil vezes maior que o do nosso planeta e eu sinto frio. sou pequeno e ainda assim sigo vivo e minha vida é boa. (a beleza da contradição e de saber que estou tão longe do sol e tão próximo dele.)

---
meu templo foi construído em cima de um mangue. minha Casa é uma pilha de sal atlântico.
---

eu preciso enfrentar a paura de dormir e me entregar para o inabitado em mim. sobretudo preciso entender o que faz a falta de Casa sobre meu coração, este vício incontrolável pela rua e também estes rizomas. estes rizomas.

(gustavo me diz que não é razoável não enfrentar meu sono, eu digo que concordo e meus olhos ardem de sono e sinto cansaço. ele se cobre de azul e tudo é tão bom e quente. ainda assim eu passei cinco horas na imigração e vi tantas pessoas tristes e fora de casa.)

quinta-feira, 26 de junho de 2014

algumas formas de nominar o amor

a nau
o serrote
a via
o caju
15
o nó




varanasi

eu me rendo a ti,
pois desde pequeno tu me escolhestes 
para teu servo

filarmônica/violoncelo

esta noite eu sonhei com a filarmônica de nova iorque, tinha um coral junto e nele cantava a esperanza spalding. eles faziam um cânone maluco que fez emocionar umas crianças japonesas que assistiam e cantavam junto, chorando de alegria. os violoncelistas puxavam o arco com tanta rapidez que parecia uma dança.

avó

minha avó, aos oitenta e três, deu para revolver histórias do passado. decidiu adotar um amontoado de cobertas ora como filhinho, ora como uma infinita pilha de roupas sujas. suas mãos nunca aquecem pois há uma semana minha avó furou um poço e tem buscado no subterrâneo as forças para sobreviver.

pois quem se negou a aceitá-la foi quem sofreu e quem se recusa a curvar sobre suas vontades é quem é silenciado. minha avó reassumiu seu posto de matriarca da nossa pequena família, rainha do seu quintal, sábia e poderosa professora sobre a vida.

sábado, 22 de março de 2014

aurora

deitar contigo na rua do futuro
e te ter, aurora

pôr por terra as nossas vontades,
a saudade e o sal, 
trançar tua língua
e com a minha, aurora,
traçar tua costa,
traçar a rota, remar 
até que enfim, aurora
que enfim sejamos
só céu e mar